A depressão e eu…

Por Ennas Barreto – Jornalista esportiva. Atualmente assessora do Nacional FC. Afilhada de Celso Unzelte e louca pelo Corinthians.

Comecei a escrever esse texto há alguns anos. Sempre penso e repenso na maneira como vou me posicionar em redes sociais. Sim, eu sou dessas que se preocupa com o que vão falar. Faço isso, pelo nome que carrego, em respeito aos meus avós, meus pais, meus irmãos e minha filha, pelos meus professores, as empresas que represento e pelos meus amigos também. 
Essa preocupação já me ajudou em muitos momentos, mas também já foi problema, mas nunca me trouxe sofrimento, por isso, não mudei de opinião.

Há 15 anos sai de minha cidade natal para vir a capital buscar tratamento para um nódulo na garganta. Fui obrigada a largar tudo o que preenchia minha vida: trabalho, amigos, minha filha com dois anos de idade. Tudo aconteceu tão de repente que eu nem acreditava no que estava acontecendo. Só queria minha saúde. Precisava dela para cuidar da minha filha e buscar a realização de tantos sonhos, o principal: ser jornalista.

Depois de quase um ano encarando o serviço público de saúde de Manaus e, após ouvir de um médico do PAM da Codajás que eu deveria voltar para o interior e morrer próxima dos meus, percebi que eu estava sendo um fardo para os que me rodeavam. Meu dias continuavam sendo de oração, mas sempre repensando minha posição no mundo e decidi que não adiantava mais viver.

Minha cidade é pequena, daquelas em que todos se conhecem e alguns comentários sobre meu estado de saúde, bem mentirosos, faziam minha família sofrer, ou seja, eu era um fardo para as pessoas. Para quê viver se não consigo nem ser útil para minha filha?

Decidi que aquele milagre divino recebido por meus pais em 17 de setembro de 1983 chegaria ao fim. Não tentei pôr fim a minha vida através de nenhum ato, mas esperei que a morte chegasse. Foram noites e noites em claro, esperando que o coração parasse de bater. Foram exatos duas semanas sem banho. Foram dias e dias fingindo comer. Cheguei a pesar menos que 30 kg. O objetivo estava sendo alcançado, todos poderiam ter paz com minha ausência. Eu sempre cheia de amigos, passei não querer mais me comunicar, me aproveitei da orientação médica para falar pouco. Guardei o motivo e o verdadeiro objetivo.

Mas um pedido da minha Tekinha me salvou. Um rapaz enfermeiro, filho de pastor, contrariando a vontade dos donos da casa onde eu morava que se conformavam com o meu estado de saúde, por acreditarem que era devido ao nódulo, invadiu a residência e em seu colo, me levou ao hospital. Passei três meses internada, sem nenhum familiar próximo, mas Deus enviou seus anjos e usou os melhores profissionais para cuidar de mim.

Encontrei um ótimo psiquiatra, uma ótima psicóloga que sempre me diziam: “mana, tu tens excesso de hormônio, vai liberar isso”. Sim, há graça em tudo, basta você ver.

O resto, muitos de vocês já sabem. Venci a depressão, comecei a trabalhar, formei em jornalismo, trouxe minha filha para morar comigo e sou tão, tão feliz. Porém, essa vida é cheia de percalços e nós precisamos ter saúde para encará-la.

Nos últimos três anos, perdi exatamente cinco pessoas para a depressão, duas somente este ano. Há um ano e meio, minha tia tem enfrentado a doença, não é fácil e os comentários sobre o assunto afundam mais, infelizmente, o que antecipa o fim não é somente a depressão é o preconceito. Ele faz o doente sentir medo, vergonha de se abrir, de falar…

Quem me conhece, pessoalmente, sabe que sempre fiz questão de conversar sobre depressão e suicídio. Sempre disse que precisamos nos cuidar, mas quando ela bate a nossa porta, a situação muda. O fato de já tê-la enfrentado me trouxe um pouco de conhecimento sobre o assunto, por isso, afirmo com toda certeza: O PRECONCEITO MATA MAIS QUE A DEPRESSÃO. SE VOCÊ NÃO ENTENDE O QUE FAZ UMA PESSOA NÃO QUERER MAIS TRABALHAR, ESTUDAR, SAIR DA CAMA OU SE VOCÊ SE PERGUNTA O MOTIVO DE UMA PESSOA QUE TEM ‘TUDO’ TIRAR A PRÓPRIA VIDA, OU O MOTIVO DELA NÃO TER CONVERSADO, não vomite suas opiniões, você pode estar determinando o fim de uma árdua luta que é viver. Leia, leia, leia, leia, converse, faça terapia. O psiquiatra e o psicólogo não são médicos para doido, são médicos, simples assim.

Em janeiro de 2019 perdi a Andreza. Ontem perdi mais uma pessoa especial. Estou tentando superar o luto, afinal, ele faz parte, mas é preciso enxergar que a morte não é a única certeza da vida. Eu continuo lendo para me conhecer mais, entender mais minha filha, meu esposo, meus pais, meus irmãos, meus amigos, meus colegas de trabalho, meu chefe, o garçom, o motorista, o atleta, o jornalista, ENTENDER AS ATITUDES DOS SERES HUMANOS QUE ME CERCAM. 
Não sou a dona da verdade, não sou perfeita e nem pretendo ser. Só quero continuar tendo paz e ser feliz, com as pessoas que são felizes ao meu lado.

PENSE: Se você muda seu estilo de vida para evitar câncer, diabetes, colesterol, gastrite por que não muda também para evitar um problema psicológico?

Vamos nos cuidar, por favor, vamos!

A foto mostra o lugar e as pessoas que me ajudam a recarregar as energias!

*O texto é de total reponsabilidade da autora. É um texto pessoal e opinativo.

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